Autor: João B. Sundfeld
Data: Novembro - 2010
O entendimento mais comum entre as pessoas menos habituadas a lidar com assuntos financeiros, é que o Capital de Giro é representado pelos valores disponibilizados para que os negócios sejam realizados. É verdade. Muito simples não fora o grau de dúvidas contidas na expressão “valores disponibilizados”. Que valores seriam esses? Para defini-los necessitamos conhecer alguns fundamentos do chamado capital de giro.
O balanço da empresa nos dá informações a respeito dos investimentos (ativos) de um lado, e da estrutura das fontes de financiamentos (passivos), de outro. Necessitamos conhecer os componentes da estrutura financeira da empresa, o que nos leva ao conhecimento sobre o nível de investimentos em ativos circulantes (até um ano) e o grau de financiamentos com passivos circulantes (até um ano).
Lawrence Gitman, importante autor de textos sobre análise e planejamento financeiro, informa que 40% dos do total de ativos nas indústrias norte-americanas correspondem a ativos circulantes e os passivos circulantes correspondem a 26% do total dos passivos totais (Princípios de Administração Financeira – Gitman L, 10ª.edição, Pearson). Dada a semelhança das práticas administrativas adotadas em países ocidentais, podemos assumir que, no Brasil, esses números sejam semelhantes.
A importância do assunto é destacada por pesquisa da revista Fortune: entre mil das maiores empresas americanas, mais de 30% do tempo dos administradores financeiros é consumido gerindo ativos circulantes.
O assunto é bastante técnico, porém fácil de ser entendido pelo leitor dedicado e interessado em Gestão Financeira.
A composição dos ativos circulantes nos é dada pelos saldos de caixa, bancos, contas a receber e estoques.
Importante: Em análise econômica e financeira, assume-se que os ativos circulantes têm prazo de até um ano para se tornarem valores líquidos, ou seja, dinheiro vivo. Isso significa que pertencem ao Capital de Giro valores de curto prazo (12 meses).
Vamos examinar agora a fonte de recursos que permitiram a aquisição dos ativos circulantes – são os Passivos Circulantes.
São formados pelas Contas a Pagar: fornecedores, alugueres, luz, água, telefone, leasing, planos de saúde e valores que devam ser pagos no prazo de até um ano.
A seguir temos: Folha de Pagamento e Encargos Sociais (INSS). Continuamos com Impostos a recolher: ICMS, PIS, COFINS, Simples e, se houver Imposto de Renda e Refis (reformulação dos prazos para recolhimento de impostos e encargos. Finalmente, consideraremos os Financiamentos de Curto Prazo (até um ano), tomados em bancos.
O total dos Passivos Circulantes, assim apurado, é deduzido do total dos Ativos Circulantes para obtermos o Capital Circulante Líquido ou o Capital de Giro somente.
Uma empresa incapaz de pagar suas contas (passivo circulante) nas datas de vencimentos é considerada tecnicamente insolvente. Para o Planejamento Financeiro é imprescindível utilizar índices chamados de Índices de Liquidez, como veremos a seguir.
O estudo do capital de giro ganha importância quando se estuda rentabilidade e riscos do negócio. O gestor financeiro necessita conhecer os mecanismos de apuração dos índices.
O Indice de liquidez representa a capacidade da empresa para fazer frente a seus compromissos de curto prazo (12 meses). Por exemplo, a indústria ABC tem ativos circulantes no total de R$ 1.500.000,00 e passivos circulantes de R$ 750.000,00. Se dividirmos os ativos pelos passivos, encontraremos o quociente igual a 2, significando que para cada R$ 2,00 de ativos ela tem R$ 1,00 de passivos, portanto poderá liquidar seus passivos com facilidade. Porém, todos os ativos deverão ser transformados em dinheiro disponível no tempo certo, para que a liquidez se efetive.
As saídas de recursos para pagamentos costumam ser facilmente previsíveis, já que seus vencimentos são conhecidos. As dificuldades surgem nas previsões de entradas, isto é na conversão de ativos circulantes em disponibilidades. Nesse ponto recomendamos ao leitor, retomar o conteúdo acima sobre Ativos Circulantes.
As Contas a Receber têm vencimentos determinados quando das vendas. Basta consultarmos as faturas de vendas e teremos o prazo médio de recebimento. Entretanto, os estoques ainda devem ser vendidos para serem transformados em disponibilidades (recursos líquidos).
Numa indústria, por exemplo, à medida que se analisam matérias-primas, estoques em processamento na produção e estoques acabados, têm-se maior evidência das citadas dificuldades, porque teremos que calcular quando estarão prontos para venda.
Assim sendo, é necessário que haja ativos circulantes (AC) em volume superior às saídas exigidas pelos passivos circulantes (PC), para aumentar o índice de liquidez corrente.
A tabela 1 abaixo mostra os efeitos das variações dos quocientes entre Ativo Circulante (AC) sobre Ativos Totais e Passivos Circulantes (PC) sobre passivos totais em relação ao lucro e ao risco de insolvência:
| Quociente (Q) | Variação de Q | Efeito sobre lucro | Efeito sobre risco |
| AC/Ativos totais | Aumento Diminuição |
Diminuição Aumento |
Diminuição Aumento |
| PC/Passivos totais | Aumento Diminuição |
Aumento Diminuição |
Aumento Diminuição |
Tabela 1
A tabela deverá ser lida considerando as participações percentuais dos ativos e passivos circulantes sobre os respectivos totais de ativos e passivos. Analisados os quocientes e seus efeitos sobre o lucro e sobre o risco, o executivo da empresa poderá tirar suas próprias conclusões sobre a composição de seu capital de giro líquido e seu Fluxo de Caixa.
As Estratégias Financeiras deverão estar contidas no Planejamento Financeiro para obtermos melhores resultados. Sugerimos as seguintes práticas:
A boa Administração Financeira do Capital de Giro permite à empresa competir com vantagem, porque sua análise demonstra os pontos fortes e fracos da organização.
(*) Prof.(*)
João B. Sundfeld: economista, contador, MBA em Marketing, Mestre em Educação, participou de cursos na AOTS no Japão em 1994 e 1996. É coach e sócio e consultor da Sundfeld & Associados – Gestão Empresarial