As Sequelas da Crise

Autor: João B. Sundfeld
Data: Setembro - 2010

A crise global iniciada nos EUA com a quebra do Banco Lehman Brothers em 2008, chegou ao Brasil e foi enfrentada por nosso sistema bancário sem grandes problemas porque já havíamos adotado medidas que o fortaleceram e tornaram-no mais sólido do que em outros países. Entretanto, nossa economia, como um todo, sentiu seus efeitos, especialmente na indústria.

O governo privilegiou alguns setores por ter eliminado, temporariamente, os efeitos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre os preços. Assim mesmo o aumento do consumo ocorreu com mais intensidade nos setores escolhidos como nas indústrias automobilísticas, de produtos da linha branca e de eletrodomésticos.

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com dados publicados no “O Estado” de 24.09.10 mostram que os efeitos da crise ainda atingem 59% das indústrias brasileiras, chegando a 46% nas grandes empresas e 63% nas pequenas. Os exportadores sentem mais os efeitos da crise porque os preços internacionais, de modo geral, caíram assim como a demanda externa.

Apesar dos indicadores industriais apontarem para um faturamento recorde na indústria em 2010, a crise deixou sequelas ainda não superadas. Nossa balança comercial foi favorecida pelas exportações de produtos primários como minério de ferro e commodities agrícolas, mas com redução de produtos industrializados prejudicando a indústria.

A pesquisa mostrou que 51% das empresas afirmam que a demanda externa é menor agora do que antes da crise. Segundo dados da CNI, 21% das indústrias cancelaram investimentos previstos e ainda não conseguiram retomá-los. A pesquisa também indicou que 27% das indústrias voltaram a investir, mas em valores menores do que antes da crise.

A pesquisa revela um dado, por si só, preocupante porque 35% das indústrias afirmam que o acesso ao crédito está mais difícil do que antes da crise.

Menos crédito e juros muito elevados fazem com que nossa indústria fique expremida de um lado pela queda da demanda e de outro pelos custos financeiros elevados.

Sob o ponto de vista do consumo interno, há dados do comércio que indicam aumento das vendas em alguns setores, como automóveis e eletrodomésticos, ocasionado pelo crédito farto e prazos de pagamento alongados.

Efeito indesejado foi o aumento das importações, especialmente de produtos industrializados vindos da China, cujo câmbio favorece as importações, além dos preços imbatíveis devido aos baixos salários e menores impostos. Com este efeito nossas indústrias sofrem com a concorrência internacional.

Impõe-se a reforma tributária, nem sequer cogitada em época de eleições. Assim é evidente a conclusão de que a crise que enfrentamos em 2008 e 2009, ainda não foi superada, cabendo esforços adicionais em busca de melhores dias.

(*) João B.Sundfeld é economista, coach, consultor empresarial, constelador e sócio da Sundfeld & Associados - Gestão Empresarial