Carência de mão de obra qualificada

Autor: João B. Sundfeld
Data: Junho - 2011

O título desse artigo resultou de inúmeras notícias que vêm sendo divulgadas nos meios de comunicação, sobre as dificuldades que a maioria das empresas encontra ao contratar pessoas qualificadas, para grande parte das vagas disponíveis. Pesquisa de 2010, da Fundação Dom Cabral, trouxe informações importantes para que o assunto seja analisado em sua essência.

A significância da pesquisa é revelada por 130 empresas de variados setores da economia brasileira, que constituem 22% do PIB com faturamento de R$ 130 bilhões/ano. Os números impressionam: 92% dessas empresas encontram problemas nas contratações.
As maiores carências são:
1. Técnicos em produção.......................................45%
2. Engenheiros mecânicos.....................................34%
3. Gerentes de projetos........................................29%
4. Administrativos................................................22%
5. Operadores de produção...................................24%
6. Profissionais de Recursos Humanos....................22%
7. Engenheiros de produção..................................21%

Todas essas funções requerem conhecimentos técnicos. Das empresas pesquisadas, 81% indicaram dificuldades para encontrar profissionais capacitados. A falta de experiência dos candidatos foi relatada por 49% das organizações. Outros 42% descreveram a deficiência na formação básica como empecilhos para a contratação. Outros dados importantes foram: atender à pretensão de remuneração = 35% e características pessoais incompatíveis com os objetivos e valores da empresa = 11%. Paramos por aqui com dados estatísticos.

Os dados já listados são considerados suficientes para nossas análises. Grifamos as deficiências dos candidatos e permitimo-nos destacá-las:

• Falta de conhecimentos técnicos e deficiência na formação básica.
• Falta de profissionais capacitados.
• Falta de experiência na função
• Pretensão de remuneração, acima do oferecido.
• Características pessoais incompatíveis com a empresa.

ANÁLISE DOS DADOS APRESENTADOS

A maioria dos cargos com dificuldade de contratação, diz respeito a profissionais técnicos, por deficiências na formação básica. Depreende-se desse dado, que nossas escolas de nível médio e superior, oferecem cursos cujos conteúdos e cargas horárias são insuficientes para a formação de profissionais gabaritados.

Essa constatação confirma minha observação, como professor de cursos em pós-graduação desde 1980, de que o nível de conhecimentos dos alunos vem decrescendo ano a ano, o que torna difícil o aprendizado superior já que, além de chegarem mal formados, revelam aversão por leituras, cujo hábito e prazer são
imprescindíveis para aquisição de novos conhecimentos.Trata-se de toda uma geração, criada sob formidáveis progressos da tecnologia da informação, que apresenta novidades inimagináveis há 20 anos. Novos produtos e programas como computadores, softwares, celulares, bluetoth, tablets e outros "smarts" similares, poderiam ser aproveitados pelas escolas e jovens para melhorar o ensino e o aprendizado de formações técnicas, tão carentes no mercado de trabalho, como revela a pesquisa da Fundação Dom Cabral.

A esses jovens falta a percepção das vantagens que têm nas mãos, para que seu futuro seja melhor do que das gerações passadas. Não compreendem que poderiam ler mais para galgar patamares mais elevados de conhecimentos, tanto técnicos como sociais, políticos, e econômicos, que os levariam à conscientização de suas potencialidades para mudar o Brasil em suas carências essenciais, como educação, saúde, emprego e, principalmente quanto à cidadania, respeito aos mais velhos e aos cidadãos em geral, sem discriminações odiosas.

Se perguntarmos aos jovens o que é mais importante para suas vidas, a resposta, quase instantânea, é ter dinheiro, carros, roupas, boa vida e diversão, o que nada significam desde que não resultem em maiores chances de felicidade e mais oportunidades futuras.

As aquisições imediatas resolvem um prazer consumista momentâneo e não resultam em planejamento de vida, no longo prazo. Os reflexos são visíveis para os que pensam e refletem sobre os efeitos negativos dos comportamentos acima aludidos. O que se vê, e a pesquisa confirma, é:

• Baixa escolaridade.
• Má formação e preparação para o mercado de trabalho.
• Redução do tempo de duração dos casamentos, sem a criação de laços de amor verdadeiro e boas amizades entre parceiros.
• Ausência de ambiente familiar propício ao desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes.

Estima-se que 70% da educação das crianças deverão vir do convívio familiar, e os restantes 30% restantes, ficariam por conta das escolas.

Temos, como consequência, uma população deseducada e sem princípios morais e éticos, demonstrados em péssimos comportamentos em todas as cidades brasileiras.

Diante desse quadro, deve-se concluir que tudo está perdido?

Não cheguemos a tanto, mas é preciso que as autoridades responsáveis, mães, pais e empresários conscientes da necessidade de mudarmos os rumos da educação, adotem medidas urgentes para reverter esse triste quadro, por meio de ações cujos efeitos somente serão percebidos aos poucos e, no mercado de trabalho, no médio e longo prazo.

Não se trata de análise pessimista, mas realista. Sou otimista quanto às possibilidades futuras de nossa sociedade como um todo. Porém, é absolutamente necessário que comecemos já as mudanças, caso contrário vamos amargar o quadro aqui apresentado por muitos e muitos anos.

Já dizia Albert Einstein que "nenhum problema poderá ser resolvido com o mesmo olhar que o criou". É preciso mudar a visão.

(*) João B. Sundfeld é economista, pós graduado em marketing com mestrado em educação. É sócio e consultor da SUNDFELD & Associados – Gestão Empresarial