Autor: João B. Sundfeld
Data: Setembro - 2008
Fonte: Diário de São Paulo
Um dos grandes riscos da atividade empresarial é a competição predatória quando caracterizada pela entrada no mercado de empresários aventureiros no setor e sem competência administrativa. Em geral esses “aventureiros” surgem em atividades com pequenas barreiras de entrada, ou seja, pequeno investimento, não exigência de conhecimentos tecnológicos, de marketing, vendas e finanças. Por ignorância passam a disputar os mesmos espaços com empresas já estabelecidas, tratando de penetrar no mercado oferecendo produtos ou serviços com preços aviltados.
De nossa parte, consideramos a concorrência como elemento saudável e necessário num mercado democraticamente definido. A questão é: como uma pequena empresa pode enfrentar esses “novos entrantes” com essas características inconvenientes? Como manter e criar vantagens competitivas num mercado onde os preços já determinam baixa lucratividade e rentabilidade? Um instrumento eficaz, embora raramente utilizado, é a análise de quatro elementos de marketing conhecidos pelos especialistas como marketing mix ou os 4 P’s, reunindo o produto ou serviço, o preço, o ponto de distribuição e a publicidade.
Começando pelo produto ou serviço, é necessária completa revisão dos custos envolvidos na manufatura ou prestação de serviços. A análise detalhada dos custos exige conhecer bem os fornecedores para assegurarmos que os preços pagos são os mais adequados. Em seguida é preciso examinar o capital de giro investido em compras e estoques representados pelas matérias-primas e componentes essenciais. Uma idéia já incorporada e bastante conhecida é o “just-in-time” que, essencialmente, significa negociar a compra do mínimo necessário e obter compromissos de reposição rápida evitando estocagem cujo custo financeiro não é nada desprezível. Todos os demais custos e despesas devem ser examinados em detalhes, iniciando as análises pelos mais significativos até os de pequeno valor, mas que no final das contas, se economizados, poderão representar ganhos adicionais.
Nos setores manufatureiros com aplicação de mão-de-obra intensiva, dois fatores são essenciais. O primeiro é representado pelas perdas existentes no trabalho decorrentes de atividades que não agregam valor algum, como, por exemplo, movimentos inúteis que demandam mais tempo do trabalhador para posicionar ou reposicionar materiais quando poderia ser criada uma célula de produção onde uma pessoa operacionaliza mais de uma máquina ao mesmo tempo. O segundo é que as pessoas não utilizam todo o seu potencial no trabalho devido à falta de comprometimento e auto-estima, falhas na educação, ausência de treinamento, supervisão ineficaz e, frequentemente, a própria natureza do trabalho é do tipo que não agrega valor. Corrigidas estas ineficiências teremos significativas reduções de custos e melhoria em processos.
Não raro uma revisão do “lay-out” pode reduzir tempos, movimentos e custos. A adoção do conhecido programa chamado 5 S’s com o objetivo de separar, arrumar, limpar, padronizar e manter tudo em ordem, certamente eleva o moral e traz novo clima na empresa. Além disso, poderão ser identificadas necessidades objetivas de formação e treinamento do pessoal para melhoria da produtividade com gastos insignificantes em relação aos benefícios. Velhos e ineficazes hábitos devem ser eliminados para evitar a manutenção porque “sempre foi feito assim”.
Numa pequena empresa todas as pessoas devem sentir-se como donos de todos os processos para haver intercâmbio de funções sempre que necessário. Por exemplo, o motorista pode colaborar com a carga e a descarga, ao invés de ficar parado apenas esperando alguém realizar esta tarefa. A redução de tempo é significativa. Uma pessoa pode ser mais ágil do que outra, podendo realizar atividades com menos dispêndio de tempo. A análise de todas as atividades põe em evidência problemas e oportunidades de melhorias. Recentemente, constatamos um caso em que o fornecedor tinha preços menores, mas não entregava nos prazos combinados. Com isso punha a perder a economia feita nos preços, já que prejudicava toda a seqüência de produção causando atraso nas entregas.
No caso de empresas de varejo ou de prestação de serviços, o atendimento ao público é item de grande importância. Vendedores bem preparados retém clientes e os tornam clientes fiéis, aumentando o valor das vendas sem custo adicional. O último dos 4 P’s, a propaganda, é um veículo poderoso quando bem empregada posicionando a empresa, produtos e serviços nas mentes dos clientes.
Finalmente, é preciso lembrar que um concorrente novo no mercado, ou mesmo um existente, poderá rebaixar preços reduzindo lucros ou até realizando prejuízos. Uma tarefa crítica do empresário, pequeno ou grande, é assumir uma atitude de liderança para reconhecer os benefícios de um programa como o acima exposto, dirigir sua aplicação e assegurar que o foco sobre a eliminação de barreiras às mudanças seja mantido, garantindo o êxito do programa e trazendo, como resultado, maior satisfação dos clientes pelo valor agregado aos produtos.
(*) João Baptista Sundfeld, economista, mestre em Educação, professor de Planejamento Estratégico e Análise Financeira, é sócio da Sundfeld & Associados.