Pessoas é que fazem a diferença nas empresas

Autor: João B. Sundfeld
Data: Fevereiro - 2009

Seria possível copiar os resultados de uma empresa bem-sucedida, sem copiarmos os processos que a levaram aos bons resultados? Os processos incluem tecnologia, máquinas, equipamentos, materiais, software e pessoal treinado. A motivação das pessoas para realização das tarefas com sucesso depende de fatores que vêm do coração, do íntimo. E isso não se copia. Conclui-se que, sem criarmos condições para as pessoas adotarem comportamentos alinhados aos objetivos da empresas, nunca conseguiremos atingir melhores resultados.

O sistema educacional formal não está em consonância com as necessidades do mercado e privilegia a assimilação de informações ao invés de educar as pessoas para mudarem comportamentos e aprenderem a raciocinar. As empresas, por sua vez, não estimulam seus colaboradores a pensar antes de agir. A criatividade fica sobre os ombros de uns poucos, que se orgulham disso, mas sua produtividade é pífia perto das necessidades das empresas. A maioria deve apenas seguir as ordens e nada criar.

Modernamente, surgiu a Gestão do Conhecimento. Suas premissas têm base na aproximação entre a empresa e o ser humano, valorizando a intuição, a informação obtida e analisada por meio do conhecimento, dos sentimentos, da autonomia, do pensamento sistêmico e da administração participativa

Empresas de vanguarda já adotam técnicas reconhecendo que o conhecimento é um ativo de grande valor e que não deve ser desprezado.

No Brasil, a maioria das empresas enfrentou uma crise de sobrevivência após a abertura do mercado em 1990, tendo que competir de forma inteligente e profissional. Com a implantação do Plano Real, em 1994, novas dificuldades surgiram para as empresas navegarem num mar onde a inflação era declinante e reajustes de preços traziam importante perda de competitividade. A crise econômica e financeira iniciada nos EUA em 2008 trouxe problemas às empresas e para milhões de pessoas no mundo todo.

Apesar de o Brasil estar em melhores condições do que no passado, ainda sentimos a queda do PIB e o aumento do desemprego. Estamos na expectativa da retomada do crescimento, o qual, ao que tudo indica, ficará para 2010.

Em qualquer situação, porém é evidente que a melhor forma de as empresas enfrentarem as adversidades é contar com seu capital humano. Trata-se de uma vantagem competitiva importante. Organizações que podem contar com o talento dos funcionários e com o conhecimento coletivo, incorporado à cultura e aos sistemas e processos da empresa, certamente terão melhores armas para aproveitar a ocasião atual, repensar estratégias e alterar enfoques.

A nosso ver, a melhor tática é adotar um programa visando reciclar os colaboradores, criando condições para mudanças de comportamento, utilizando um sistema de transmissão de conhecimentos adequados às necessidades da empresa e aproveitando os talentos existentes. O tempo a ser despendido e a percepção de resultados concretos dependerá da participação efetiva de todas as lideranças, especialmente do principal executivo da organização, cujo comportamento exemplar sempre estimula todos.

Em 1996, participei de curso para brasileiros, proporcionado pela AOTS em Nagoya no Japão, com o Prof. Morita, sobre Mudança de Comportamento (Changing Behavior). Aprendemos a utilizar técnicas que permitem ao individuo, assimilar as vantagens de agir de modo mais adequado para melhorar seus relacionamentos interpessoais. Devidamente autorizado, traduzi os textos para o português. Contando com a participação de nosso colega do Instituto AOTS São Paulo, Prof. Luciano Mazza, ministramos vários cursos sobre o assunto, na USP e em empresas do mercado.

Os conceitos da Administração Participativa, pelos quais os colaboradores são chamados a opinar sobre decisões, são imprescindíveis. Com dedicação e comprometimento é possível alterar os rumos da empresa e criar um futuro com bases sólidas. Com a participação efetiva e eficaz de todos quantos têm interesse nos bons resultados, sejam proprietários, fornecedores, clientes e colaboradores, a empresa só tem a ganhar. Considerando a automatização de processos industriais, os operários podem utilizar sua capacidade intelectual para aumentar a produtividade. Segundo Kiichi Mochizuki, ex-executivo de uma siderúrgica japonesa, “com as fábricas computadorizadas e máquinas controladas digitalmente (...) as habilidades passaram de destreza manual para intelectual”. Educação e treinamento, incluídos no planejamento estratégico das empresas, possibilitam a utilização do capital intelectual dos colaboradores. Em minha opinião, não restam dúvidas de que as pessoas é que fazem a diferença numa organização.

(*) João Baptista Sundfeld, economista, mestre em Educação, professor de Planejamento Estratégico e Análise Financeira, é sócio da Sundfeld & Associados.