Por que há profissionais com baixa competência?

Autor: João B. Sundfeld
Data: Março - 2009

Desde 1987 venho catalogando os fatores que, em minha opinião, são responsáveis pela má qualidade de grande parte dos profissionais graduados por nossas faculdades. O primeiro fator observado foi uma crescente queda nos conhecimentos gerais dos alunos de cursos de pós-graduação, nos quais leciono. São graduados em diversas áreas como administração, engenharia, comunicação, direito, economia, medicina, contabilidade e outras menos procuradas.  Naquela época, notei que os alunos ocupavam cargos elevados em grandes empresas nacionais e multinacionais, destacando-se como diretores, gerentes gerais e gerentes de departamentos. Eram jovens com idade aproximada de 40 anos e com experiência de trabalhos executados em diversas empresas. A maioria era composta por homens. Hoje as mulheres ocupam essa posição.

O decréscimo, tanto nos conhecimentos prévios (fundamental e médio) como na graduação foi lento, mas inexorável nesses 22 anos. Uma causa a explorar seria a queda no nível do ensino, tanto nas escolas da rede pública como das particulares. Num passado mais distante, as escolas públicas eram consideradas bem melhores do que as particulares. Entretanto, no período ora analisado, houve uma inversão, passando as particulares a deterem maior importância, apesar de serem custosas para os alunos em geral, com exceção daqueles pertencentes a classes de maior renda. Por outro lado, o mercado de empregos passou a exigir formação adicional em cursos de pós-graduação fazendo com que os recém formados neles se matriculassem. Assim, a idade média dos alunos decresceu dos 40 anos citados para algo em torno de 23 anos. Os conhecimentos práticos também ficaram reduzidos, como consequência da redução da idade média.

Deve-se acrescentar que a falta de interesse em leituras de bom nível, leva as pessoas às cercanias do analfabetismo funcional, ou seja, sabem ler, porém não conseguem avaliar o texto e explicá-lo. Leituras rápidas de notícias na Internet são dados e não informações, portanto, nada acrescentam.

No dia 23.03.09, editorial do jornal O Estado de S.Paulo destaca números do último Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo (IDESP), mostrando que a rede pública do ensino básico continua longe de apresentar um nível razoável de qualidade.

Criado em 2007, o IDESP leva em conta os resultados do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar no Estado de São Paulo, que mede conhecimentos dos alunos em português e matemática e as taxas de aprovação, repetição e evasão de cada ciclo escolar – da 1ª à 4ª e da 5ª à 8ª série, no ensino fundamental, e das três séries do ensino médio. Diz o jornal “como era de esperar, as escolas situadas em bairros de classe média e alta tiveram melhor evolução do que as escolas da periferia e áreas pobres”. Na Capital, numa escala de 0 a 10, os alunos de bairros de classe média e alta tiveram um IDESP de 3,65 no ciclo básico e 2,39 no ensino médio. Os piores desempenhos foram de escolas em Cidade Tiradentes, Guaianases, Iguatemi, José Bonifácio e São Rafael – bairros carentes e surgidos a partir de ocupações e conjuntos habitacionais populares. Os índices foram 1,95 no fundamental e no ensino médio alcançaram 1,14. Em cidades do interior, não foi diferente. Desconheço avaliações oficiais em escolas particulares, mas creio que poderão demonstrar índices um pouco melhores, sem, contudo, serem motivo de júbilo, se considerarmos a escala de 0 a 10.

Os dados do IDESP possibilitarão  às autoridades de ensino planejar melhorias, entretanto, os dados agora coletados dão uma idéia do acontecido nos últimos 20 anos com os alunos e alunas que hoje pretendem uma vaga nas empresas. No fim e ao cabo, essas são as razões por que, a meu ver, temos tantos profissionais com baixa competência nas diversas áreas do conhecimento.

Minhas conclusões, infelizmente, levam-me a projetar dificuldades por mais de uma geração para termos uma massa crítica de pessoas razoavelmente preparadas a fim de suprir as necessidades das organizações industriais, comerciais e de serviços. Continuaremos a ter falta de mão-de-obra qualificada para hospitais, na construção civil, nas indústrias, no comércio e em serviços em geral. Não incluímos os serviços públicos, porque há consenso sobre sua má qualidade, com raras exceções.

A proposta positiva adentra os ambientes empresariais, que poderão colaborar para termos melhores condições, desde que possam investir na formação de seus colaboradores, o que não está fácil de ocorrer nos dias atuais. 

(*) João Baptista Sundfeld, economista, mestre em Educação, professor de Planejamento Estratégico e Análise Financeira, é sócio da Sundfeld & Associados.